Hoje estamos nós em cena…

Não faz muito tempo, escutei pela primeira vez a música “sombra de um jatobá” de Toquinho, grande expoente da MPB. Confesso que daquela hora em diante, em minha vida, muita coisa mudou. Engraçado que a canção não trata de um tema extraordinário, tampouco complexo – ela fala de coisas do cotidiano. Talvez seja por isso que eu tenha me chocado tanto com as palavras que o poeta usou para expressar o seu sentimento diante da existência.

Não gostaria neste texto de fazer uma reflexão sobre a música, porque isso poderia até mesmo enfraquecer a sua intensidade… Pois, sinceramente, não há palavras para expressar de outro modo aquilo que na poesia se faz com maestria e exuberância, quanto mais quando se trata de refletir sobre elementos de nosso cotidiano… Todavia, quero simplesmente expressar o que senti ao escutar e ler os versos do seu estribilho que diz:

“Hoje estamos nós em cena/ e não há tempo a perder/ pois tudo acaba mesmo/ sempre em despedida”.

Com este verso comecei a chorar e a pensar sobre cada instante vivido, cada palavra pronunciada, e em cada segundo gastado à toa durante a minha vida… Pensei muitas vezes que o amanhã seria o dia mais propício para eu resolver tantas coisas. O amor, o sucesso, a realização do sonho, o perdão: de tudo isso fugia como o capeta foge da cruz, como diz o ditado popular…

Mas, depois de ter escutado os versos de Toquinho, comecei a olhar o meu tempo presente com outros olhos, não mais como um instante qualquer, onde eu pudesse curtir desenfreadamente na certeza de um outro dia chegar. Passei a ver o meu momento presente como um cenário, cujo marcador é o tempo – o tempo que passa… e nos convida a com ele passar…

Neste cenário sou eu o ator que assume a peça, o responsável pela “encarnação” do personagem maior que há não fora de mim, mas no mais profundo de meu ser… Este cenário só é possível existir no tempo presente quando me coloco conscientemente em ação e degusto de todas as possibilidades que me são concedidas.

A capacidade de interpretação é inerente a todo ser que neste cenário se faz presente… pois, nele não há espaço para platéia, todos são convidados a se apresentar, cada qual com o seu jeito, seu papel, sua liberdade, seu script. Todos são convidados a internalizar uma única verdade: “Tudo acaba mesmo sempre em despedida…”

Ao final de cada apresentação, uma coisa é certa, todos se despedirão e sairão de cena… cada um no seu momento próprio, não importa o capítulo que estão atuando, o que importa é que a hora chegou… o tempo acabou.

Vejo que o nosso cotidiano é devorado o tempo inteiro pela estressante corrida atrás de sucessos que na verdade são volúveis. E quão triste é deixar que a vida se resuma em vazio… Com esta canção, pude aprender a olhar com mais consideração cada segundo de minha vida, e dá-lo mais importância.

Claro que não podemos nos tornar escravos do tempo, e tampouco colocarmo-nos em estado de medo e insegurança diante do futuro.  Pois, se isso acontece deixamos de viver e ficamos aprisionados em nosso mundinho. Isso seria uma loucura.

Mas, quero dizer que é preciso valorizar o cenário no qual nos encontramos e sentir cada instante com total intensidade. Precisamos viver o momento presente sem nos preocuparmos com aquilo que ainda não nos pertence…

Aqui vale lembrar que precisamos ser mais responsáveis no uso de nossos elementos que temos à nossa disposição, o que temos no presente, usufruindo do cenário social e natural, profissional e cultural que temos – com respeito e serenidade para que o futuro seja para a próxima humanidade um presente de nossas mãos, ou seja, o que presente que construímos para ficar como herança.

Estamos nós em cena e precisamos zelar pelo espaço onde estamos inseridos tornando-o mais humano, fraterno e agradável… por isso não podemos desperdiçar a vida que Deus nos concedeu. Ao contrário, temos a missão de cuidar para que os nossos sonhos sejam os melhores, e assim as nossas realizações serão mais belas e cheias de vitalidade e sentido…

Concluo com uma frase de um outro poeta chamado Gonzaguinha – que diz com muita maestria uma grande verdade sobre a nossa existência: “A vida não tem replay…” Eis uma tese imutável que pode muito nos ensinar sobre a arte de viver. Se soubermos interpretar este verso, a nossa vida será mais bela e ganhará novo sentido… Tudo passará pelo crivo da novidade e da admiração, não haverá perda de tempo e tampouco espaço para os famosos prés: conceitos, juízos, sentimentos, e tantos mais… Pois tudo passa e sem replay, sem oportunidade de concerto…

Aproveitemos enquanto estamos em cena e atuemos com total intensidade buscando a cada instante dar o melhor de nós para que o mundo re-experimente o que outrora fora: um belo paraíso.

Pe. Ivanilton,msj

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