Corpos que se vão…

Caminhando pelos cantos da cidade, vejo diversas pessoas perambulando, outras trabalhando, algumas entre risos se divertem, enquanto, a algumas quadras, um corpo estendido. Dentro do caixão, sozinho, o corpo se despede de todos os familiares, amigos e do cachorro, pequeno cãozinho que lhe fizera companhia por durante anos.

Olhos fechados, semblante triste, próprio dos corpos que se vão sem querer… pois, talvez, sei lá eu, gostariam de ficar. A vida e a morte parecem duas inimigas, mas não sei se são tão inimigas assim. Aliás, os amigos costumam ser generosos, se doam, cedem um ao outro aquilo de que dispõem, numa complementação sem igual. Amigos de verdade são assim.

A morte, e nisso acredito, é uma continuação da vida, por isso, não consigo compreender o que as torna tão estranhas. Gosto de ler os textos bíblicos que falam sobre a morte, principalmente aqueles do Novo Testamento em que Jesus se apresenta como o grão. O grão, segundo Ele, precisa passar pela morte se quiser viver.

A vida é a continuação da morte. Viver é um constante morrer. Morrer é um constante viver. Na medida em que vivemos vamos morrendo, gastando nossos anos, o que era futuro transforma-se em passado depois de consumado pela força do presente.

Algumas coisas ficam de alguém quando morre. As roupas, os bens, o chinelo, assim como, a bolsa. Sim, na bolsa está tudo aquilo que ele nesta vida adquiriu. Não levará nada. Tudo ficará. Os sábios já nos diziam, a milhares de anos, que desta vida nada se leva. Pensando bem, nem mesmo o cadáver, que outrora, era um corpo vivo, belo, bonito será transportado para o além. Ficará na terra, pois as Escrituras Sagradas já a muito afirma que do pó viemos e para ele voltaremos.

Não devemos ter medo do morrer, porque ele é necessário se queremos continuar a viver. O nosso maior desafio é despedirmo-nos deste cenário humano, natural. Mas, isso é impossível quando não temos o controle de nossa partida. É a morte a única viagem que fazemos sem marcar agenda, sem comprar passagem – ela é gratuita e sem datas previamente marcadas.

Por isso o medo da morte, a insegurança existencial. Viver é isso: lidar com o segredo da morte. Enquanto não aprendermos a relacionar com o presente como um presente de Deus e dele tomarmos posse sem deixar que um segundo passe sem que dele degustemos… enquanto não devorarmos cada instante sentindo o perfume da rosa, e o cheiro da terra não aprenderemos a amar aquela que um dia, vestida de roxo virá.

A cor roxa é na liturgia cristã, no tempo quaresmal, uma cor que indica tristeza, dor, penitência… indica a morte. Por isso, este tempo é chamado de tempo oportuno de conversão, mudança de vida – tempo de mortificação para nascer de novo.

Não sei tanto o porquê de se usar o preto como cor preferida da morte – não sei se é porque nos ensinaram na infância que, se não fossemos bonzinhos, seríamos lançados num quarto escuro e devorados pelo bicho que ali se escondia… Bem, não sei o porquê, mas creio que a cor que melhor se adequaria para identificar a morte seria o roxo… Afinal, morrer é renascer para novamente viver… Porém, noutra dimensão.

E o corpo estava no caixão, entregue aos olhares de visitantes que choram e se despedem para nunca mais reencontrar o amigo que agora já não mais se encontra no aqui… Dele só restaram os bens, o cãozinho e para alguns daqueles ali presentes, a saudade… isso mesmo, restou a saudade para alguns, pois, num velório, temos muitos rostos que vêm e vêem o defunto pela primeira vez no dia de seu sepultamento: primeiro e último olhar. Para estes a saudade não existirá.

A saudade nasce de encontros. Muitos se esquecerão com rapidez deste pobre homem… O que mais dói é saber que enquanto estamos vivos, temos um milhão de olhares, mas depois que morrermos poucos sentirão. Isto porque durante a vida não houve tantos encontros e verdadeiros sentimentos, o que existiu fora tão somente esbarros e palavras soltas como folhas secas ao vento…

Daí, a importância de degustarmos a cada segundo de nossa vida, antes da morte chegar, o sabor das palavras e dos encontros, pois, disso alimenta nossa alma e nosso coração…

Pe. Ivanilton,msj

 

Sobre Pe. Ivanilton,msj

Sou mineiro, natural de Águas Formosas, pequena cidade situada na região nordeste do estado. Desde muito cedo, gosto de trabalhar com minhas próprias mãos. Amo a cultura mineira, gosto do meu povo, das cantigas de roda e das famosas comidas típicas que só se encontram em Minas. Somente aos 18 anos de idade é que saí de casa, entrei para o Seminário do Instituto Missionário São José. Em Aparecida do Taboado, MS, recebi a formação propedêutica. Terminado este período, mudei-me para Taubaté, SP, onde cursei três anos de Filosofia, na UNITAU (Universidade de Taubaté) e, logo após, iniciei o curso de Teologia, pela faculdade Dehoniana. Passados quatro anos de estudos teológicos, fui ordenado Diácono, pelo Instituto Missionário São José, do qual sou membro. Em julho de 2009 fui ordenado Padre e, hoje, exerço o meu ministério na Paróquia Santa Rita de Cássia em Pontalina/GO. Creio que a vida é o dom mais precioso que Deus, gratuitamente nos presenteou. Por isso, carrego em meu coração, o desejo de viver seguindo os pés do Mestre dos mestres, Jesus de Nazaré. O lema que me inspira e ilumina a minha missão é: "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente" (cf.: Jo 10,10b).

2 comentários sobre “Corpos que se vão…

  1. Meu querido,ouço nesse momento as músicas de seu site.
    Já sinto um nó na garganta,mas digo até breve meu amigo,Deus te abençoee te proteja. Continue sempre assim,levando almas pra Deus.

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