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Advento: Tempo da manifestação de Jesus Cristo

Tempo de esperaMais um final de ano se aproxima. Percebe-se que a propaganda comercial “natalina” começa a pupular por todo lado,prometendo muita alegria e felicidade,ilusoriamente “embutidas” nos produtos de consumo.Esse é o natal do comércio.Já o natal do cristianismo é bem diferente,pois tem um sentido profundo.O natal do comércio gira em torno de objetos de consumo,já o Natal cristão gira em torno de uma pessoa: Jesus Cristo.

Como comunidade cristã iniciamos domingo(28/11) nosso tempo de preparação para o Natal.A esse tempo nós chamamos de Advento: tem a ver com aguardo,espera.É um tempo próprio para fazermos um balanço e retomar nosso compromisso com o projeto de Deus. Continue reading

Sobre as relação humanas

Construir relações mais humanas

Prof. José Pereira da Silva

Vivemos numa sociedade acostumada a grandes avanços tecnológicos e espetaculares descobertas científicas que,com freqüência,deslumbram muitas pessoas,chegando a fazê-las perder de vista o principal: o ser humano.

A violência e a intolerância tem dominado o mundo. Para que uma sociedade seja madura,serena e criativa,deve precaver-se desse mal do qual padecem certos ambientes,cada vez mais numerosos,infelizmente,e que deveria ser um sinal de alerta para aqueles a quem a ausência de uma educação séria e profunda,fundamentada no conhecimento e no respeito ao ser humano,provoca uma imersão paulatina na vulgaridade e na grosseria,que são sintomas inequívocos de barbárie cultural: a regressão doentia à primazia dos instintos,à caverna,à selva,à incivilidade.

Falta em muitos lugares boas maneiras,educação,respeito pelo outro,gentileza.

Nossa vida desenvolve-se lado a lado com outras pessoas: na família,no trabalho,na escola,na rua,no bairro,nas relações sociais.Convivemos com pessoas de diferentes culturas,formações,temperamentos,posições sociais,credos políticos e aspirações.

A convivência impõe-se por si só,e de nós depende sua qualidade,para que as relações dela decorrentes sejam mais humanas.

É preciso pensar nos demais.Conviver exige respeitar nossos semelhantes e,para que esse respeito se manifeste,convém que algumas normas de convivência sejam onhecidas e exercitadas com esmero.Conviver com a má educação torna a vida sem graça,grosseira e desagradável.

A cortesia e as boas maneiras são tão necessárias quanto importantes.As normas que ajudam a conviver – a boa educação – baseiam-se na consideração e no respeito com relação aos demais.

É preciso criar uma espiral da ética.Alimentamos esta espiral através de nossos comportamentos e atitudes.Leonardo Boff escreveu um texto que chamou de “Espírito da gentileza”,onde citou Blaise Pascal(1623-1662),gênio da matemática,inventor da máquina de calcular,filósofo e místico:

“Pascal percebeu a grande contradição dos tempos modernos que acabavam de se firmar: a desarticulação entre dois princípios que ele chamou de esprit de géométrie e esprit de finesse.Espírito de geometria representa a razão calculatória,instrumental-analítica,que se ocupa das coisas,a ciência moderna que com seu poder mudou a face da Terra.Espírito de finura,que nós traduzimos por espírito de gentileza,representa a razão cordial – logique Du coeur (a lógica do coração) segundo Pascal – que tem a ver com as pessoas e as relações sociais,com outro tipo de ciência que cuida da subjetividade,do sentido da vida,da espiritualidade e da qualidade das relações humanas.

Ambas as razões são necessárias para darmos conta da existência.O drama da modernidade consiste na desarticulação dessas duas razões imprescindíveis.De início,se combateram mutuamente,depois,marcharam paralelas e hoje,buscam convergências na diversidade,no esforço,ainda que tardio,de salvar o ser humano e a integridade da natureza.O fato é que o ll,aespírito de geometria foi inflacionado;com ele criamos o mundo dos artefatos,bons e perversos,desde a geladeira até a bomba atômica…O espírito de gentileza nunca ganhou centralidade,por isso somos tão vazios e violentos.Hoje ele é urgente.Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos”.

Não é a educação que,em princípio,torna uma pessoa gentil.A gentileza está muito além do comportamento educado.É uma particularidade superior,de alma,de caráter ,que tem a ver com personalidade,postura e com a conduta íntima de cada um.

Charles Chaplin disse: “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.Mais do que de máquinas,precisamos de humanidade.Mais do que de inteligência,precisamos de afeição e doçura.Sem essas virtudes,a vida será de violência e tudo será perdido”.

O grande escritor Dostoievski escreveu: “Não é o cérebroque importa mais,mas sim o que o rienta: o caráter,o coração,a generosidade,as idéias”.

O estilo e as boas maneiras não se aprendem nos livros.Não se ensinam nas salas de aula.Mostram-se,ao contrário,como uma força que brota de dentro,como uma maneira de respirar do espírito,uma elegância vital.É maravilhoso encontrar pessoas de qualidade humana evidente,respeitosas,atenciosas,abertas,cordiais etc.Essas pessoas nunca saem de moda.Escreveu São Bernardo de Claraval: “Quem trata mal a sim esmo,a quem tratará bem? Pense pois nisto: queira bem a sim mesmo”.

Os modos externos são o selo da personalidade interior.Devemos lembrar do conselho de Santa Tereza de Ávila de sermos cordiais com todos,mesmo que sejam muito inferiores;não é honra para quem recebe,mas é para quem dá.

O ser humano vive em sociedade,por mais reduzida que seja,relaciona-se com os demais e suas ações repercutem nos outros.Por isso,a naturalidade consiste em conviver,em relacionar-se com as pessoas e cuidar de todos os aspectos que tornem mais grata e amável a convivência;o contrário seria antinatural,estranho.

É urgente educar as relações,construir caminhos educativos mais fecundos.Pois em nossa sociedade falta em muitos momentos sensibilidade de caráter ético ou de valores.

A lógica individualista corrói por dentro as estruturas sociais e o tecido de relações sobre as quais se fundamenta a convivência.


Tudo é bastante fragmentário…

Nutrir e reforçar a esperança em tempos não-utópicos

Ser solidário não custa nadaO nosso tempo traz a marca do pensamento débil.Tudo é bastante fragmentário.Essa é uma característica da chamada cultura pós-moderna.O incentivo é para que se desfrute do momento presente,sem raízes no passado e sem medir conseqüências empenhativas para o futuro.

Nesse ambiente há pouca razão para a sensibilidade às necessidades do outro.O que importa é a minha situação.A situação do outro é problema dele.A solidariedade dá-se,quando muito,na superfície.Costuma-se avaliar uma pessoa pelo grau de poder  aquisitivo que possui.

A visibilidade de alguém é proporcional ao seu poder de compra e à sua influência política.Há enorme exaltação às aparências e ao consumismo.Os sonhos da maioria das pessoas pendem para esse lado,debilitando o pensamento.

Há muitos efeitos visuais e bastante barulho.Mas o que fica de consistente de tudo isso? Há caminhos alternativos?

A vida é muito mais teimosa e inteligente do que se pensava.Possui uma extraordinária capacidade de adaptação.O homem como ser pensante surgiu na face do planeta em época relativamente recente: há 300.000 anos,ao que parece.Não admira,pois,que sejamos ainda tão bisonhos na arte de pensar.

Cultivamos a arte do pensamento útil e correto,e esquecemos que o sentimento é tão inteligente quanto a própria razão.O conhecimento é sempre fruto de uma experiência interior,o resto é informação,dizia Einstein.

O homem é infinitamente mais do que máquina ou animal pensante.A verdade não é apenas uma questão de fé.É,em sua essência,uma forma de amor.

É isso que Cristo veio anunciar.E tudo isso deve tomar em conta quem quer ter uma idéia de como vai ser o futuro espiritual da humanidade.

O tempo em que o Criador nos colocou é de natureza evolutiva.A vida veio para vencer,e não apenas para sobreviver.O mesmo vale para a vida espiritual.

Santo Agostinho(354-430) foi um dos primeiros pensadores cristãos que se deu conta de que a vida de fé é mais do que uma simples questão de desenvolvimento.O verdadeiro caminho da fé,diz ele,passa pela transformação.

Os instrumentos e meios capazes de fazer feliz uma criança já não servem mais para realizar uma pessoa adulta.Não são os anos que separam um adulto do  seu tempo de criança.A diferença está nos instrumentos de que se serve para dar um significado e um conteúdo gratificante ao tempo,que é o dia de uma criança.

Num livro intitulado A Totalidade e a Ordem  Implicada(Ed.Cultrix) o físico atômico americano David Bohm se dispõe a apresentar ao leitor “uma nova percepção da realidade”.Tudo o que nós,cientistas,filósofos etc apresentamos como  sendo a Realidade,é apenas uma parte dela.Reflete e representa a parcela que nossa mente conseguiu aprender.

Tudo o que costumamos arrolar como conhecimento objetivo da realidade,nada mais é,na verdade,do que o fruto de nossa incapacidade  de ver o universo como totalidade.

Precisamos oferecer aos homens e às mulheres  do Terceiro Milênio paradigmas éticos e religiosos como medida e padrão de valorização existencial.

A esperança não consiste em aguardar que as coisas aconteçam,torcendo para que o resultado esteja de acordo com o que desejamos.

A esperança é uma virtude singular: ela predispõe o indivíduo a morrer por uma causa,se for preciso.Aqueles que vivem da esperança são os que não se contentam com o que alcançaram.Querem-no de forma efetiva,não o querem apenas para si.

Em toda esperança existe a lógica do amor.A experiência humana da esperança se  desdobra em três níveis de realização:

– O nível mais profundo,em nosso ser,no qual ela se identifica com o próprio ela vital.

-Em plano propriamente humano,a esperança vai ao encontro dos desejos e projetos racionais,animando o viver,o conviver e o agir da pessoa e da sociedade

-Levando à perfeição esse plano humano,retificando e guiando os desejos,os projetos e as ações,a esperança se torna o princípio coerente e unificador da vida,como coragem de existir,de aceitar e orientar o seu destino,no sentido do bem e de maneira responsável.

Nutrir e reforçar a esperança é,antes de mais nada,oferecer bases e condições concretas de viver.A primeira forma de presença da esperança é ir aprendendo como “dar certo” na vida e como dar sentido aos inevitáveis fracassos,dentro do processo de tentativas e erros.

A esperança é uma certeza prática,uma força que ajuda a viver,a superar as crises e a enfrentar os desafios.Ela deve ser fonte de energia,soerguendo o peso e exorcizando as incertezas da existência.

Ela nos oferece uma fonte de sentidos,um quadro de referência que nos ajude a dar,de maneira responsável,um sentido à história que vamos vivendo.A esperança nos leva a viver,sofrer,lutar na certeza da vitória e na busca dos valores e direitos humanos,o bem comum a promover,o discernimento dos valores éticos. É preciso manter a esperança em tempos não-utópicos.

Prof.José Pereira da Silva