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As escolhas

Cecília MeirelesSomos nós que fazemos a vida Como der ou puder ou quiser…

A vida é feita de escolhas, como descreve Cecilia em seu poema, Ou Isto ou Aquilo. Ela escreve sobre o dinamismo do dia a dia na cidade e no campo, em qualquer hora ou lugar, desde o nascer ao pôr do sol, estamos sempre escolhendo. Por que a liberdade de escolha é uma experiência cotidiana que fazemos muitas vezes inconscientemente, é mais que um poema, é pura realidade, aliás, a poesia nasce da realidade, do concreto, da vida vivida sem pressa, nasce do amor, da luz e dos sonhos.

Há em cada um de nós uma enorme capacidade de escolher entre ficar triste ou alegre, chorar ou sorrir, falar ou silenciar… Isto é, é você quem escolhe o que se quer pra si. Diante de uma decisão, se analisadas com cautela e sabedoria, sempre haverá duas ou mais alternativas. Jesus nos ensina que devemos escolher entre o sim e o não: Sim quando sim e não quando não. Ou seja, só é preciso saber escolher. Mas está tudo nas suas mãos, razão e coração. Como diz o Gonzaguinha na sua canção “o Que é, o Que é?”: Somos nós que fazemos a vida Como der ou puder ou quiser…

Voltando ao poema da Cecilia Meireles, confesso que o admirei desde a primeira vez que o vi, me tocou profundamente cada palavra. Interessante, Cecília Meireles uma grande referência na literatura brasileira, por ser poetisa, pintora, professora e jornalista, nascida em Rio de Janeiro em 07 de novembro de 1901 – deixou-nos uma riqueza incomensurável ao apresentar-nos, num dos seus tantos poemas, uma bela descrição sobre o que chamamos de escolhas. Antes de ler o poema, te dou uma sugestão: Escolha ser feliz e pronto! Assim você poderá fazer outros felizes! Mas não se esqueça: Sem Deus é impossível ser feliz! Pense nisso!

Ou Isto ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Era do Eu

Era do Eu

A humanidade, como se sabe, fizera séculos de história, elaborou tratados sobre tudo, céu, terra, ar, fogo, Deus… Outrora, falava-se muito das coisas, dos elementos da natureza, o sol, a água, os seres vivos, enfim… Com a modernidade, a coisa é um pouco diferente: o homem é o centro. Tudo bem, nada contra; aliás, precisamos dar atenção a nós mesmos, enquanto pessoa humana que precisa ser olhada e cuidada. Disso não discordo.

Eu

A era do eu

Porém, nunca se falou tanto do homem, como hoje tem se falado e escrito nas mais diversas culturas. Na verdade, nos faz pensar no “para onde” estamos indo. O egocentrismo está intimamente ligado a este atual padrão comportamental. Tem, e isso é nítido, uma paralela relação entre o interesse cientificista e o capitalismo. O primeiro recebe apoio do segundo e ambos juntos produzem uma cultura diversa. De um lado, o acesso aos mais diversos meios de aperfeiçoamento do ser (se isso pode-se dizer) e, de outro, o centralismo antropológico-cultural. Ou seja, há muito investimento no mundo interior enquanto preocupação em torno de si, pensando simplesmente em gerar uma auto-satisfação plena para o ego.

Daí, a percepção da nítida construção de uma comunicação reveladora do mais profundo gosto por si em detrimento do outro. Amar a si mesmo em excesso, faz tão mal quanto não se amar. Isso vale para os verbos cuidar, preocupar… Mas, deixar que ser assuma um lugar de destaque, o destaque que lhe cabe, não faz mal. Afinal, falar de si mesmo pode ser tanto bom quanto estranho, dependendo da circunstância e do momento. Aliás, o ser quando se propõe a falar de si de modo auto-biográfico, enquanto descrição de si mesmo, e o faz com sinceridade e respeito. Na verdade, podemos enxergá-lo como um exercício enriquecedor para quem carece de reconhecimento.

Na sociedade hodierna está muito presente, como característica peculiar da época, o falar de si. É incrível o quanto a moda do Eu tem sido tão levada à sério pela humanidade recente (de modo particular). Em tudo se instaura este pronome pessoal… dar especial atenção a si mesmo, é próprio da atualidade moderna (ou pós moderna como já denominam no presente). E o pior é que, todos nós, em cena, estamos sujeitos a viver assim. Inconscientemente vamos sendo envolvidos pelos efeitos de tal cultura. Estamos todos no mesmo barco, pensemos nisso: Com o excesso da era do eu, às vezes o próprio Deus se cala em nossa fala… eis um grande perigo!

Pe. Ivanilton,msj

Sobre as relação humanas

Construir relações mais humanas

Prof. José Pereira da Silva

Vivemos numa sociedade acostumada a grandes avanços tecnológicos e espetaculares descobertas científicas que,com freqüência,deslumbram muitas pessoas,chegando a fazê-las perder de vista o principal: o ser humano.

A violência e a intolerância tem dominado o mundo. Para que uma sociedade seja madura,serena e criativa,deve precaver-se desse mal do qual padecem certos ambientes,cada vez mais numerosos,infelizmente,e que deveria ser um sinal de alerta para aqueles a quem a ausência de uma educação séria e profunda,fundamentada no conhecimento e no respeito ao ser humano,provoca uma imersão paulatina na vulgaridade e na grosseria,que são sintomas inequívocos de barbárie cultural: a regressão doentia à primazia dos instintos,à caverna,à selva,à incivilidade.

Falta em muitos lugares boas maneiras,educação,respeito pelo outro,gentileza.

Nossa vida desenvolve-se lado a lado com outras pessoas: na família,no trabalho,na escola,na rua,no bairro,nas relações sociais.Convivemos com pessoas de diferentes culturas,formações,temperamentos,posições sociais,credos políticos e aspirações.

A convivência impõe-se por si só,e de nós depende sua qualidade,para que as relações dela decorrentes sejam mais humanas.

É preciso pensar nos demais.Conviver exige respeitar nossos semelhantes e,para que esse respeito se manifeste,convém que algumas normas de convivência sejam onhecidas e exercitadas com esmero.Conviver com a má educação torna a vida sem graça,grosseira e desagradável.

A cortesia e as boas maneiras são tão necessárias quanto importantes.As normas que ajudam a conviver – a boa educação – baseiam-se na consideração e no respeito com relação aos demais.

É preciso criar uma espiral da ética.Alimentamos esta espiral através de nossos comportamentos e atitudes.Leonardo Boff escreveu um texto que chamou de “Espírito da gentileza”,onde citou Blaise Pascal(1623-1662),gênio da matemática,inventor da máquina de calcular,filósofo e místico:

“Pascal percebeu a grande contradição dos tempos modernos que acabavam de se firmar: a desarticulação entre dois princípios que ele chamou de esprit de géométrie e esprit de finesse.Espírito de geometria representa a razão calculatória,instrumental-analítica,que se ocupa das coisas,a ciência moderna que com seu poder mudou a face da Terra.Espírito de finura,que nós traduzimos por espírito de gentileza,representa a razão cordial – logique Du coeur (a lógica do coração) segundo Pascal – que tem a ver com as pessoas e as relações sociais,com outro tipo de ciência que cuida da subjetividade,do sentido da vida,da espiritualidade e da qualidade das relações humanas.

Ambas as razões são necessárias para darmos conta da existência.O drama da modernidade consiste na desarticulação dessas duas razões imprescindíveis.De início,se combateram mutuamente,depois,marcharam paralelas e hoje,buscam convergências na diversidade,no esforço,ainda que tardio,de salvar o ser humano e a integridade da natureza.O fato é que o ll,aespírito de geometria foi inflacionado;com ele criamos o mundo dos artefatos,bons e perversos,desde a geladeira até a bomba atômica…O espírito de gentileza nunca ganhou centralidade,por isso somos tão vazios e violentos.Hoje ele é urgente.Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos”.

Não é a educação que,em princípio,torna uma pessoa gentil.A gentileza está muito além do comportamento educado.É uma particularidade superior,de alma,de caráter ,que tem a ver com personalidade,postura e com a conduta íntima de cada um.

Charles Chaplin disse: “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.Mais do que de máquinas,precisamos de humanidade.Mais do que de inteligência,precisamos de afeição e doçura.Sem essas virtudes,a vida será de violência e tudo será perdido”.

O grande escritor Dostoievski escreveu: “Não é o cérebroque importa mais,mas sim o que o rienta: o caráter,o coração,a generosidade,as idéias”.

O estilo e as boas maneiras não se aprendem nos livros.Não se ensinam nas salas de aula.Mostram-se,ao contrário,como uma força que brota de dentro,como uma maneira de respirar do espírito,uma elegância vital.É maravilhoso encontrar pessoas de qualidade humana evidente,respeitosas,atenciosas,abertas,cordiais etc.Essas pessoas nunca saem de moda.Escreveu São Bernardo de Claraval: “Quem trata mal a sim esmo,a quem tratará bem? Pense pois nisto: queira bem a sim mesmo”.

Os modos externos são o selo da personalidade interior.Devemos lembrar do conselho de Santa Tereza de Ávila de sermos cordiais com todos,mesmo que sejam muito inferiores;não é honra para quem recebe,mas é para quem dá.

O ser humano vive em sociedade,por mais reduzida que seja,relaciona-se com os demais e suas ações repercutem nos outros.Por isso,a naturalidade consiste em conviver,em relacionar-se com as pessoas e cuidar de todos os aspectos que tornem mais grata e amável a convivência;o contrário seria antinatural,estranho.

É urgente educar as relações,construir caminhos educativos mais fecundos.Pois em nossa sociedade falta em muitos momentos sensibilidade de caráter ético ou de valores.

A lógica individualista corrói por dentro as estruturas sociais e o tecido de relações sobre as quais se fundamenta a convivência.