Sobre as relação humanas

Construir relações mais humanas

Prof. José Pereira da Silva

Vivemos numa sociedade acostumada a grandes avanços tecnológicos e espetaculares descobertas científicas que,com freqüência,deslumbram muitas pessoas,chegando a fazê-las perder de vista o principal: o ser humano.

A violência e a intolerância tem dominado o mundo. Para que uma sociedade seja madura,serena e criativa,deve precaver-se desse mal do qual padecem certos ambientes,cada vez mais numerosos,infelizmente,e que deveria ser um sinal de alerta para aqueles a quem a ausência de uma educação séria e profunda,fundamentada no conhecimento e no respeito ao ser humano,provoca uma imersão paulatina na vulgaridade e na grosseria,que são sintomas inequívocos de barbárie cultural: a regressão doentia à primazia dos instintos,à caverna,à selva,à incivilidade.

Falta em muitos lugares boas maneiras,educação,respeito pelo outro,gentileza.

Nossa vida desenvolve-se lado a lado com outras pessoas: na família,no trabalho,na escola,na rua,no bairro,nas relações sociais.Convivemos com pessoas de diferentes culturas,formações,temperamentos,posições sociais,credos políticos e aspirações.

A convivência impõe-se por si só,e de nós depende sua qualidade,para que as relações dela decorrentes sejam mais humanas.

É preciso pensar nos demais.Conviver exige respeitar nossos semelhantes e,para que esse respeito se manifeste,convém que algumas normas de convivência sejam onhecidas e exercitadas com esmero.Conviver com a má educação torna a vida sem graça,grosseira e desagradável.

A cortesia e as boas maneiras são tão necessárias quanto importantes.As normas que ajudam a conviver – a boa educação – baseiam-se na consideração e no respeito com relação aos demais.

É preciso criar uma espiral da ética.Alimentamos esta espiral através de nossos comportamentos e atitudes.Leonardo Boff escreveu um texto que chamou de “Espírito da gentileza”,onde citou Blaise Pascal(1623-1662),gênio da matemática,inventor da máquina de calcular,filósofo e místico:

“Pascal percebeu a grande contradição dos tempos modernos que acabavam de se firmar: a desarticulação entre dois princípios que ele chamou de esprit de géométrie e esprit de finesse.Espírito de geometria representa a razão calculatória,instrumental-analítica,que se ocupa das coisas,a ciência moderna que com seu poder mudou a face da Terra.Espírito de finura,que nós traduzimos por espírito de gentileza,representa a razão cordial – logique Du coeur (a lógica do coração) segundo Pascal – que tem a ver com as pessoas e as relações sociais,com outro tipo de ciência que cuida da subjetividade,do sentido da vida,da espiritualidade e da qualidade das relações humanas.

Ambas as razões são necessárias para darmos conta da existência.O drama da modernidade consiste na desarticulação dessas duas razões imprescindíveis.De início,se combateram mutuamente,depois,marcharam paralelas e hoje,buscam convergências na diversidade,no esforço,ainda que tardio,de salvar o ser humano e a integridade da natureza.O fato é que o ll,aespírito de geometria foi inflacionado;com ele criamos o mundo dos artefatos,bons e perversos,desde a geladeira até a bomba atômica…O espírito de gentileza nunca ganhou centralidade,por isso somos tão vazios e violentos.Hoje ele é urgente.Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos”.

Não é a educação que,em princípio,torna uma pessoa gentil.A gentileza está muito além do comportamento educado.É uma particularidade superior,de alma,de caráter ,que tem a ver com personalidade,postura e com a conduta íntima de cada um.

Charles Chaplin disse: “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.Mais do que de máquinas,precisamos de humanidade.Mais do que de inteligência,precisamos de afeição e doçura.Sem essas virtudes,a vida será de violência e tudo será perdido”.

O grande escritor Dostoievski escreveu: “Não é o cérebroque importa mais,mas sim o que o rienta: o caráter,o coração,a generosidade,as idéias”.

O estilo e as boas maneiras não se aprendem nos livros.Não se ensinam nas salas de aula.Mostram-se,ao contrário,como uma força que brota de dentro,como uma maneira de respirar do espírito,uma elegância vital.É maravilhoso encontrar pessoas de qualidade humana evidente,respeitosas,atenciosas,abertas,cordiais etc.Essas pessoas nunca saem de moda.Escreveu São Bernardo de Claraval: “Quem trata mal a sim esmo,a quem tratará bem? Pense pois nisto: queira bem a sim mesmo”.

Os modos externos são o selo da personalidade interior.Devemos lembrar do conselho de Santa Tereza de Ávila de sermos cordiais com todos,mesmo que sejam muito inferiores;não é honra para quem recebe,mas é para quem dá.

O ser humano vive em sociedade,por mais reduzida que seja,relaciona-se com os demais e suas ações repercutem nos outros.Por isso,a naturalidade consiste em conviver,em relacionar-se com as pessoas e cuidar de todos os aspectos que tornem mais grata e amável a convivência;o contrário seria antinatural,estranho.

É urgente educar as relações,construir caminhos educativos mais fecundos.Pois em nossa sociedade falta em muitos momentos sensibilidade de caráter ético ou de valores.

A lógica individualista corrói por dentro as estruturas sociais e o tecido de relações sobre as quais se fundamenta a convivência.


Mês Vocacional

Deus nos chama… Deus nos ama!

Pe. Ivanilton,msj

Nos mais diversos cenários da sociedade, em todos os tempos, a todos os povos, raças e culturas, Deus se revela chamando seus filhos a colaborar no seu plano de salvação. A voz de Deus ecoa em todos os cantos desta terra, fala à humanidade de modo simples e com clareza. Ele se apresenta solidário e próximo: preocupado com a existência de cada filho seu. O chamado não é algo espetaculoso… é proposta simples que exige resposta simples.

Toda vocação nasce a partir de um encontro entre o falar de Deus e o ouvir do homem. Fruto deste encontro é a resposta livre daquele que escuta a voz. Não pode haver outro caminho de seguimento a Cristo senão o do convite de Deus e a resposta humana.

Deus não obriga os seus filhos a ser aquilo que estes não desejam. Claro que se Deus quisesse poderia impor a sua vontade por sobre as razões do homem, porém, Ele não ignora a nossa liberdade. Ao contrário, entra em nossa história, conhece-nos, caminha conosco, bebe de nossa água, ouve o nosso lamento, alimenta-nos para a vida, abre os nossos olhos e ouvidos para ver e escutar com o coração a proposta que tem para cada um de nós. Ou seja, a vocação surge a partir de um encontro, de uma convivência entre nós e Deus.

Interessante que, se analisarmos as experiências vocacionais presentes nos textos bíblicos, veremos o quanto as mesmas estão repletas de sinais de intimidade entre Aquele que chama e aquele que é chamado. Podemos notar que há uma relação afetuosa, por parte dos dois interlocutores, Deus e o homem, no processo de chamamento vocacional. Não são estranhos entre si, tampouco desconhecidos um para com o outro. Talvez, não seja tão visível esta correlação de intimidade entre Aquele e este, pois, muitas vezes compreendemos esta comunhão somente através de gestos conscientes e atitudes objetivas de modo especial por parte do homem – como, por exemplo, no jeito deste expressar sobre o Ser de Deus.

Há pessoas que dizem não possuir qualquer segredo na relação com o Senhor; dizem não possuir relação alguma de maneira direta com Deus e, por isso, repetem incessantemente que nunca ouviram o Senhor falar, nunca presenciaram revelação vocacional espiritual. Claro que, aparentemente ou diretamente isso parece uma tese que soa a mais pura verdade, quanto mais quando a pessoa não se envolve concretamente com situações e compromissos próprios de uma comunidade de fé.

Entretanto, não podemos fechar as experiências de chamado de Deus a um padrão e/ou grupo cultural-comunitário específico. Nenhuma comunidade pode se achar detentora dos ecos da voz de Deus. O Espírito sopra onde quer… assim diz o texto bíblico.

Destarte, Deus nos chama todos os dias para um compromisso, um serviço de amor a Ele na pessoa dos seus filhos. Ninguém está isento deste chamado. Todos são destinatários da revelação vocacional de Deus. Podem até não aceitar o convite, porem, dizer que não escutou o chamado não é uma verdade. Neste sentido, fica-nos uma pergunta: Como estamos ouvindo a voz de Deus? E como estamos respondendo a esta voz?

Enfim, Deus nos chama com voz de pastor. E nós, somos convidados a escutá-lo como boas ovelhas. Somos cuidados por Deus, Ele nos chama para a vida, lava as nossas feridas e nos aquece em tempo frio. Conversa conosco: tanto fala ao nosso ouvido quanto escuta a nossa voz – se torna não somente pastor nosso de cada dia, mas amigo, companheiro e mestre de todas as horas. Nenhuma ovelha é esquecida, todas são chamadas a viver com o Pastor.

No sentido real da vida, homens e mulheres são chamados a assumir não somente o papel e a conduta de discípulos-ovelhas, mas a de missionários-pastores. Todos são chamados a serem zeladores da vida, mestres na arte do cuidado, anunciadores da Boa Nova, comprometidos com o redil comum que é Reino de Deus. Somos chamados todos os dias a ser operários na messe do Senhor. Jesus de Nazaré continua sua caminhada em nosso meio, convidando-nos a segui-lo servindo-o na vida de nossos irmãos e irmãs. Deus nos Chama…