Aniversário Presbiteral

Louvado seja Deus por tão precioso dom!!! Obrigado, Senhor, por fazer-me instrumento vosso! Sei que não sou santo, sou humano… Santa Teresinha já compreendias bem o que é um sacerdote, por isso, cito-a: “Pelo espaço de um mês, privei com muitos sacerdotes santos, e verifiquei que, se a sua sublime dignidade os coloca acima dos anjos, nem por isso deixam de ser humanos, fracos e falhos…” (Ms A, f. 56r). Assim sendo, sei também, que me escolhestes, eu, simples homem, para ser canal de tua graça para muitos filhos teus… hoje, Senhor, renovo o meu ardor e a minha vocação! Usa-me inteiramente para o vosso serviço! Santifique as minhas fraquezas e divinize a minha humanidade, para que eu possa servir-te com alegria e amor, em cada irmão que através de minhas mãos, voz e vida, buscam a ti! Neste dia, mais uma vez, de coração sincero e convicto, faço minhas tuas palavras: “Eu vim para que todos tenham vida… (Jo 10, 10b”

Eu vim para que todos tenham vida!

"Deus quando chama alguém para um serviço, uma vocação, Ele exige muito... Ele exige tudo! Nisto Ele não é generoso não, Ele é exigente". Pe Libânio Cicuto (Fundador do Instituto Missionário São José)

Deus cria salvando…

O cuidado como meio de participação do homem na obra criacional de Deus

Talvez a sociedade atual não consiga compreender a importância do cuidado na relação entre o ser e o estar do homem no mundo e com o mundo devido ao distanciamento que se criou com o decorrer da história. A ética do cuidado nos mostra que o ser humano para que seja realmente um ser humano é preciso que se conscientize dos seus valores e potencialidades enquanto ser criado imagem e semelhança de Deus, o Criador.

O verbo cuidar tem grande importância na relação do homem consigo mesmo e com o mundo, assim nos ensina o texto bíblico Gn 1,28a “… Sede fecundos e prolíficos, enchei a terra e dominai-a…” Deus deu ao homem a liberdade para fazer as suas escolhas e viver livremente assim como toda a natureza criada.

A participação do homem na obra criadora de Deus e dá por meio da antropologia do cuidado que é ao mesmo tempo um modo de ser do homem consigo e com o outro na construção da sua história existencial. Esse cuidado abrange toda a estrutura humana desde o seu instinto aos relacionamentos inter-pessoal, intra-pessoal, intergrupal e inter-criatural (entre todas as criaturas). Destarte, não podemos pensar  a criação apenas como um ponto final, obra que um dia aconteceu apenas pela ação criadora de Deus, é preciso que tomemos consciência de que a Obra da criação foi iniciada por Deus, mas que também ao homem compete  o cuidado como participação específica e indispensável e que perpassa todos os seus atos e decisões dentro da história.

O ser humano, se assim podemos dizer, é o ser que nasce mais incompleto (não significa incompletude ontológica – mas, sim, ser em acabamento, em aprimoramento, em processo contínuo de criação) e por isso, precisa ser cuidado com mais eficiência, afinal, a ele perence a graça de ser criado à imagem e semelhança de Deus, motivo de tamanha importância e necessidade de cuidado. Porém, não podemos esquecer que toda a natureza precisa de zelo e respeito talvez não necessariamente como se deva tratar o homem, mas com a mesma  intencionalidade e dignidade. Tudo que é biológico é digno de cuidado, pois somente pela via do cuidado se pode possibiltar a sobrevivência vital de todo ser.

O verbo barah em hebraico é o termo mais apropriado para designar esta responsabilidade do homem para com o universo criado – pois, este conceito significa criar, reestruturar, sustentar e manter; Deus cria a partir do nada e o homem por sua vez, enquanto partícipe deste  ofício divino, continua processualmente o trabalho criacional de Deus por meio da preservação do mesmo e, simultaneamente, num gesto de solidariedade, cuida de todos os seres criados através de um relacionamento respeitoso e zelozo.

Segundo o teólogo A. T. Queiruga, Deus cria criadores, ou seja, ao próprio homem é dado a capacidade de criar e continuar a criação iniciada por Deus e esta continuação se dá por meio da responsável recuperação processual e cíclica por parte do homem, cujo compromisso inerente a existência histórica do homem. Salvar a criação é, segundo Queiruga, dar a criação a possibilidade de ser o que essencialmente o é. Esta possibilidade nasce da sensibilidade emotiva e racional do homem diante da natureza semelhante e diferente cujo universo em que vive e convive.

É interessante que Deus cria salvando e também cria criadores; são dois termos de uma mesma categoria e por isso são complementares; a criação precisa ser salva, pelo fato de não ser instável, conseqüentemente  ela sofre influências da historicidade humana, tantas vezes desequilibrada- destarte, necessita da graça de Deus para que seja sempre inovada e recuperada enquanto criatura. Neste sentido, a conversão se faz indispensável para a salvação,pois, é ela que favorece o crescimento e desenvolvimento verdadeiro da natureza humana. A Graça favorece a conversão e dessa forma, proporciona a continuação da obra criacional.

O cuidado, tarefa inerente ao homem, significa recuperação daquilo que Deus fez e faz no cotidiano existencial. O pecado, decisão que antecipa a ação má do homem nas suas relações, é ao mesmo tempo, a obscuridade que ofusca a sua identidade enquanto ser humano, imagem e semelhança de Deus. A sua consiência quando em estado de pecado se torna incapaz de perceber a Graca de Deus e por conseguinte não consegue apreender o caminho da pela verdade e por isso se vê  inapto a cuidar de si mesmo e dos outros bens na natureza que lhe rodeia.

Atualmente é esta a trave que impede ao homem de ser o que ele essencialmente o é. É um problema muito perigoso tanto na sua vida quanto na vida dos demais, portanto, um problema inter-pessoal.

Podemos dizer que a ciência em muito tem contribuído para o crescente problema. Na medida em que ela compartibiliza as suas faculdades específicas mais favorece um distanciamento exacerbado entre o homem e a natureza. Portanto, se faz mister uma ciência que seja holística para que dessa forma se consiga fazer uma reflexão acerca de toda a natureza e criação. Só com uma visão holística do todo, criado pelo Criador, podemos melhor cuidar dos bens da criação com mais eficiência e responsabilidade.

Pe. Ivanilton, msj

Tudo é bastante fragmentário…

Nutrir e reforçar a esperança em tempos não-utópicos

Ser solidário não custa nadaO nosso tempo traz a marca do pensamento débil.Tudo é bastante fragmentário.Essa é uma característica da chamada cultura pós-moderna.O incentivo é para que se desfrute do momento presente,sem raízes no passado e sem medir conseqüências empenhativas para o futuro.

Nesse ambiente há pouca razão para a sensibilidade às necessidades do outro.O que importa é a minha situação.A situação do outro é problema dele.A solidariedade dá-se,quando muito,na superfície.Costuma-se avaliar uma pessoa pelo grau de poder  aquisitivo que possui.

A visibilidade de alguém é proporcional ao seu poder de compra e à sua influência política.Há enorme exaltação às aparências e ao consumismo.Os sonhos da maioria das pessoas pendem para esse lado,debilitando o pensamento.

Há muitos efeitos visuais e bastante barulho.Mas o que fica de consistente de tudo isso? Há caminhos alternativos?

A vida é muito mais teimosa e inteligente do que se pensava.Possui uma extraordinária capacidade de adaptação.O homem como ser pensante surgiu na face do planeta em época relativamente recente: há 300.000 anos,ao que parece.Não admira,pois,que sejamos ainda tão bisonhos na arte de pensar.

Cultivamos a arte do pensamento útil e correto,e esquecemos que o sentimento é tão inteligente quanto a própria razão.O conhecimento é sempre fruto de uma experiência interior,o resto é informação,dizia Einstein.

O homem é infinitamente mais do que máquina ou animal pensante.A verdade não é apenas uma questão de fé.É,em sua essência,uma forma de amor.

É isso que Cristo veio anunciar.E tudo isso deve tomar em conta quem quer ter uma idéia de como vai ser o futuro espiritual da humanidade.

O tempo em que o Criador nos colocou é de natureza evolutiva.A vida veio para vencer,e não apenas para sobreviver.O mesmo vale para a vida espiritual.

Santo Agostinho(354-430) foi um dos primeiros pensadores cristãos que se deu conta de que a vida de fé é mais do que uma simples questão de desenvolvimento.O verdadeiro caminho da fé,diz ele,passa pela transformação.

Os instrumentos e meios capazes de fazer feliz uma criança já não servem mais para realizar uma pessoa adulta.Não são os anos que separam um adulto do  seu tempo de criança.A diferença está nos instrumentos de que se serve para dar um significado e um conteúdo gratificante ao tempo,que é o dia de uma criança.

Num livro intitulado A Totalidade e a Ordem  Implicada(Ed.Cultrix) o físico atômico americano David Bohm se dispõe a apresentar ao leitor “uma nova percepção da realidade”.Tudo o que nós,cientistas,filósofos etc apresentamos como  sendo a Realidade,é apenas uma parte dela.Reflete e representa a parcela que nossa mente conseguiu aprender.

Tudo o que costumamos arrolar como conhecimento objetivo da realidade,nada mais é,na verdade,do que o fruto de nossa incapacidade  de ver o universo como totalidade.

Precisamos oferecer aos homens e às mulheres  do Terceiro Milênio paradigmas éticos e religiosos como medida e padrão de valorização existencial.

A esperança não consiste em aguardar que as coisas aconteçam,torcendo para que o resultado esteja de acordo com o que desejamos.

A esperança é uma virtude singular: ela predispõe o indivíduo a morrer por uma causa,se for preciso.Aqueles que vivem da esperança são os que não se contentam com o que alcançaram.Querem-no de forma efetiva,não o querem apenas para si.

Em toda esperança existe a lógica do amor.A experiência humana da esperança se  desdobra em três níveis de realização:

– O nível mais profundo,em nosso ser,no qual ela se identifica com o próprio ela vital.

-Em plano propriamente humano,a esperança vai ao encontro dos desejos e projetos racionais,animando o viver,o conviver e o agir da pessoa e da sociedade

-Levando à perfeição esse plano humano,retificando e guiando os desejos,os projetos e as ações,a esperança se torna o princípio coerente e unificador da vida,como coragem de existir,de aceitar e orientar o seu destino,no sentido do bem e de maneira responsável.

Nutrir e reforçar a esperança é,antes de mais nada,oferecer bases e condições concretas de viver.A primeira forma de presença da esperança é ir aprendendo como “dar certo” na vida e como dar sentido aos inevitáveis fracassos,dentro do processo de tentativas e erros.

A esperança é uma certeza prática,uma força que ajuda a viver,a superar as crises e a enfrentar os desafios.Ela deve ser fonte de energia,soerguendo o peso e exorcizando as incertezas da existência.

Ela nos oferece uma fonte de sentidos,um quadro de referência que nos ajude a dar,de maneira responsável,um sentido à história que vamos vivendo.A esperança nos leva a viver,sofrer,lutar na certeza da vitória e na busca dos valores e direitos humanos,o bem comum a promover,o discernimento dos valores éticos. É preciso manter a esperança em tempos não-utópicos.

Prof.José Pereira da Silva