Deus cria salvando…

O cuidado como meio de participação do homem na obra criacional de Deus

Talvez a sociedade atual não consiga compreender a importância do cuidado na relação entre o ser e o estar do homem no mundo e com o mundo devido ao distanciamento que se criou com o decorrer da história. A ética do cuidado nos mostra que o ser humano para que seja realmente um ser humano é preciso que se conscientize dos seus valores e potencialidades enquanto ser criado imagem e semelhança de Deus, o Criador.

O verbo cuidar tem grande importância na relação do homem consigo mesmo e com o mundo, assim nos ensina o texto bíblico Gn 1,28a “… Sede fecundos e prolíficos, enchei a terra e dominai-a…” Deus deu ao homem a liberdade para fazer as suas escolhas e viver livremente assim como toda a natureza criada.

A participação do homem na obra criadora de Deus e dá por meio da antropologia do cuidado que é ao mesmo tempo um modo de ser do homem consigo e com o outro na construção da sua história existencial. Esse cuidado abrange toda a estrutura humana desde o seu instinto aos relacionamentos inter-pessoal, intra-pessoal, intergrupal e inter-criatural (entre todas as criaturas). Destarte, não podemos pensar  a criação apenas como um ponto final, obra que um dia aconteceu apenas pela ação criadora de Deus, é preciso que tomemos consciência de que a Obra da criação foi iniciada por Deus, mas que também ao homem compete  o cuidado como participação específica e indispensável e que perpassa todos os seus atos e decisões dentro da história.

O ser humano, se assim podemos dizer, é o ser que nasce mais incompleto (não significa incompletude ontológica – mas, sim, ser em acabamento, em aprimoramento, em processo contínuo de criação) e por isso, precisa ser cuidado com mais eficiência, afinal, a ele perence a graça de ser criado à imagem e semelhança de Deus, motivo de tamanha importância e necessidade de cuidado. Porém, não podemos esquecer que toda a natureza precisa de zelo e respeito talvez não necessariamente como se deva tratar o homem, mas com a mesma  intencionalidade e dignidade. Tudo que é biológico é digno de cuidado, pois somente pela via do cuidado se pode possibiltar a sobrevivência vital de todo ser.

O verbo barah em hebraico é o termo mais apropriado para designar esta responsabilidade do homem para com o universo criado – pois, este conceito significa criar, reestruturar, sustentar e manter; Deus cria a partir do nada e o homem por sua vez, enquanto partícipe deste  ofício divino, continua processualmente o trabalho criacional de Deus por meio da preservação do mesmo e, simultaneamente, num gesto de solidariedade, cuida de todos os seres criados através de um relacionamento respeitoso e zelozo.

Segundo o teólogo A. T. Queiruga, Deus cria criadores, ou seja, ao próprio homem é dado a capacidade de criar e continuar a criação iniciada por Deus e esta continuação se dá por meio da responsável recuperação processual e cíclica por parte do homem, cujo compromisso inerente a existência histórica do homem. Salvar a criação é, segundo Queiruga, dar a criação a possibilidade de ser o que essencialmente o é. Esta possibilidade nasce da sensibilidade emotiva e racional do homem diante da natureza semelhante e diferente cujo universo em que vive e convive.

É interessante que Deus cria salvando e também cria criadores; são dois termos de uma mesma categoria e por isso são complementares; a criação precisa ser salva, pelo fato de não ser instável, conseqüentemente  ela sofre influências da historicidade humana, tantas vezes desequilibrada- destarte, necessita da graça de Deus para que seja sempre inovada e recuperada enquanto criatura. Neste sentido, a conversão se faz indispensável para a salvação,pois, é ela que favorece o crescimento e desenvolvimento verdadeiro da natureza humana. A Graça favorece a conversão e dessa forma, proporciona a continuação da obra criacional.

O cuidado, tarefa inerente ao homem, significa recuperação daquilo que Deus fez e faz no cotidiano existencial. O pecado, decisão que antecipa a ação má do homem nas suas relações, é ao mesmo tempo, a obscuridade que ofusca a sua identidade enquanto ser humano, imagem e semelhança de Deus. A sua consiência quando em estado de pecado se torna incapaz de perceber a Graca de Deus e por conseguinte não consegue apreender o caminho da pela verdade e por isso se vê  inapto a cuidar de si mesmo e dos outros bens na natureza que lhe rodeia.

Atualmente é esta a trave que impede ao homem de ser o que ele essencialmente o é. É um problema muito perigoso tanto na sua vida quanto na vida dos demais, portanto, um problema inter-pessoal.

Podemos dizer que a ciência em muito tem contribuído para o crescente problema. Na medida em que ela compartibiliza as suas faculdades específicas mais favorece um distanciamento exacerbado entre o homem e a natureza. Portanto, se faz mister uma ciência que seja holística para que dessa forma se consiga fazer uma reflexão acerca de toda a natureza e criação. Só com uma visão holística do todo, criado pelo Criador, podemos melhor cuidar dos bens da criação com mais eficiência e responsabilidade.

Pe. Ivanilton, msj

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